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29 de março de 2012

No Limiar Da Antropofagia e Outros Contos - Livro Online de Dimitri Kozma

Acabo de disponibilizar meu livro "No Limiar Da Antropofagia e Outros Contos" no site Scribd. Esta é uma ótima oportunidade para quem não conhece este meu trabalho literário. Estes contos já foram publicados aqui no Sopa de Cérebro, mas agora estão disponibilizados na forma de livro. Espero que goste e compartilhe.

CLIQUE AQUI PARA LER O LIVRO ONLINE GRÁTIS

No Limiar da Antropofagia e os outros contos aqui oferecidos, retratam e evidenciam as sombras da alma humana. O lado mais obscuro e esmaecido de nosso inconsciente, aquele lado em que todos nós queremos esquecer, varrer para baixo do tapete, ignorando completamente sua existência. Todos nós temos esta face oculta, impulsiva, até perversa às vezes.

As histórias não estão situadas em nenhuma época específica, são atemporais, como fábulas pós-modernas. Poderiam se passar em qualquer parte do mundo, a qualquer momento. Escrevi os contos de maneira independente entre si, mas percebi que todos tinham o mesmo elo de ligação. Todos tratavam deste lado obscuro e indigesto de nossa mente.

O que você vai ler agora é um mergulho pela mente humana e seus becos menos explorados. Vai afrontar os confins mais ermos e lúgubres de personagens que vagam entre nós diariamente. Cruzam nossos caminhos buscando alimentar-se de nossas energias vitais, que considero a antropofagia da alma, e se escondem numa áurea de bondade. Algumas destas pessoas passam por infortúnios que os levam a situações extremas. Muitos são personagens malditos, mas todos tem sua própria justificativa interior por seus atos.

Os contos apresentados são recheados de drama e horror, a verdade nua e crua, sem rodeios ou abrandamentos. Com diversos sub níveis de leitura e interpretação, quero apresentar os fatos sem nenhum julgamento moral ou de caráter, e proporcionar a reflexão do leitor.
Não acredito no bem perene, nem no mal absoluto. Não existe simplesmente o preto e branco, e sim centenas de tons de cinza entre eles. O objetivo destes contos é mostrar estes tons desconhecidos.

Boa leitura!

Dimitri Kozma - Autor

24 de junho de 2011

Os Contos das Sombras da Mente - Antologia em Quadrinhos de Dimitri Kozma - Baixar Grátis!

Quadrinhos de graça! Liberdade de informação, cultura e entretenimento!

"Os Contos das Sombras da Mente" - Graphic Novel Antologia em quadrinhos com trabalhos antigos de Dimitri Kozma

Na antologia “Os  Contos das Sombras da Mente”, selecionei antigas histórias em quadrinhos que criei há muito tempo e que tinham sempre como tema principal o lado obscuro do inconsciente humano.

Alguns as consideram histórias de horror, mas para mim nada mais são do que simplesmente um retrato do ser humano em sua capacidade infinita de imbecilização. Uma dramatização da vida, apenas com um tempero a mais.

Publicadas em fanzines e diversos sites pela internet, o estilo visual é certamente um tanto quanto inconstante, meu estilo visual mudou bastante desde então, mas a força das mensagens e subtextos presentes continuam funcionando, por isso criei esta coletãnea de contos.

Acredito na difusão da informação, cultura e entretenimento de forma livre para todos, por isso esta edição pode ser livremente distribuída e copiada gratuitamente para fins não comerciais e sem alteração do conteúdo.

Material Bônus: Contos da Casa do Terror
Nesta antologia você vai conhecer também algumas histórias publicadas no Fanzine “Contos da Casa do Terror”, que possui os primeiros trabalhos de Dimitri Kozma em quadrinhos. O Fanzine, que servia como experimento, começou a ser publicado de forma artesanal e distribuído localmente em 1984, quando Dimitri Kozma tinha 10 anos e foi publicado esporadicamente  até 1996, chegando ao impressionante número de 102 edições. Para uma publicação independente é uma ótima marca, ainda mais em uma época pré-internet.

Hoje em dia estas edições são extremamente raras, pois tinham tiragem limitadíssima. A graphic Novel possui uma seleção com algumas das melhores histórias, com os originais traços crus e toscos, feitos sem rascunho, com caneta esferográfica.

Espero que gostem! Boa leitura!

"Os Contos das Sombras da Mente" - Graphic Novel
Autor: Dimitri Kozma
Número de Páginas: 116 páginas
Preto e Branco - Capa Colorida
Linguagem: Português
Tema: Drama e Horror para adultos

Contos incluídos nesta compilação:
- No Limiar da Antropofagia
- Repugnância e Atração
- Sanha de Sangue
- A Mais Sombria das Noites
- Corpo Abjeto
- Mais do Mesmo
Material bônus do Fanzine "Contos da Casa do Terror"
- A Violência Travestida Faz Seu Trottoir
- Prazer Macabro
- E Agora?
- Sequelas
- Atirei o Pau no Gato
- Futebol e Fome
- Uma Velha Historinha
- O Trabalho
- Rock Star
- Esquizophrenia

Clique abaixo para fazer o download de graça da versão completa da graphic novel "Os Contos das Sombras da Mente".

- Baixar no Formato CBR

- Baixar no Formato PDF


14 de agosto de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Conto - Dimitri Kozma - Índice

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.



 
Índice do conto completo NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA, criado por Dimitri Kozma, disponível online gratuitamente.

Para contactar o autor, envie e-mail para dimitrikozma@gmail.com


Sinopse:
Na provinciana cidade de São José das Oliveiras, os moradores vivem suas vidas vazias, preenchidas com culpa e angústia oferecida pela religião e pela preocupação com a vida alheia. Neste recanto de paz e serenidade vive dona Maria, conhecida pelo povo como sendo um exemplo de altruísmo e solidariedade, uma senhora admirada por todos. Ela guarda consigo um terrível segredo.

No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 01
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 02
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 03
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 04
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 05
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 06
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 07
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 08
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 09
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 10
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 11
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 12
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 13
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 14
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 15
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 16
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 17
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 18
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 19
No Limiar da Antropofagia - Conto Completo - Parte 20 - EPÍLOGO

Originalmente, No Limiar da Antropofagia foi criada como uma história em quadrinhos. Veja a versão embrionária da história que originou a saga de Dona Maria.

Atenção: Recomendo a leitura do conto em primeiro lugar.

No Limiar da Antropofagia em Quadrinhos - Parte 1

No Limiar da Antropofagia em Quadrinhos - Parte 2
No Limiar da Antropofagia em Quadrinhos - Parte 3
No Limiar da Antropofagia em Quadrinhos - Parte 4
No Limiar da Antropofagia em Quadrinhos - Parte 5

30 de julho de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 20 - EPÍLOGO - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
Comece a ler pela parte 1, clicando aqui.

Parte 20 - EPÍLOGO

Finalmente anoitece e a chuva termina, anunciando uma noite fresca e agradável. É um belíssimo sábado de céu estrelado. Mais uma vez o único velório da cidade serve de teto para a despedida de uma pessoa querida por todos naquele pequeno município.

O salão está lotado, apinhado de gente que sempre respeitou dona Maria. Pessoas entram a cada minuto, nunca antes um velório foi tão disputado. O corpo jazia naquele esquife de madeira-de-lei rebuscado com lindos entalhes e as flores a cobriam até o pescoço. Coroas não paravam de chegar em nenhum momento, singelas, mas dadas de coração. Zuleica não conseguia abrir a boca, estava chocada com tudo aquilo, chorava convulsivamente. Não conseguiu dizer nada desde que seu ídolo tinha revelado a verdadeira face. Sentada num banquinho, segurava a bíblia tão forte que chegava á transpirar nas mãos. Apenas pensava: “Linda! Dona Maria está linda!”.

Pela porta, caminhando lentamente, surge Conceição. Seu olhar é alegre, não há lágrimas nem dor. Apenas a felicidade que tentava disfarçar. Seu rosto parecia menos carregado. Vê os olhares reprovadores de algumas pessoas, mas os ignora totalmente. Olha aquela gente toda se engalfinhando para poder observar o cadáver e lembra do velório de sua doce Ivete. Aquelas pessoas que estavam lá são as mesmas que estão agora chorando por dona Maria. Pensa: “Agora é minha vez! Minha vez!”.

Num banco ao lado da mesa de mármore, dona Cida observa os cartazes com mensagens católicas pregados nas paredes. Chama-lhe particularmente atenção a seguinte mensagem: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará.”. Com pesar ela se lembra do marido, que não dormiu em casa esta noite, lembra das brigas que aconteciam frequentemente e da dor da cama vazia pela primeira vez em mais de vinte e cinco anos. Olha então para sua comadre estirada ali naquele ataúde, quase que involuntariamente pensa: “Eu estou sem marido! Mas você... Você está morta!”, não consegue evitar um meio sorriso.

Ao lado do caixão, perto da cabeça, estava Isaura. Seu enorme corpo negro afastava qualquer um que se aproximava. Suas mãos estão timidamente para trás. Derrama lágrimas sem parar enquanto acaricia o rosto de dona Maria ternamente, com delicadeza. Aquela enorme mão negra esfregando naquele rosto alvo. Agora não há mais repúdio, nojo, nenhuma reação. As lágrimas que caem de seu rosto, pingam pela face cadavérica daquela velha que, em vida, repudiava aquela cor de pele. Isaura olha dona Maria e por um instante pensa: “Branca! Eu sempre quis ser branca como você! Mas agora você está aí e eu estou viva.”

Nunca o padre Onofre desprendeu tanta atenção á um velório. Está firme, apesar de sua idade avançada, rezando sem cessar aos pés da mesa em que o féretro repousa. Seu rosto está abatido, acabara de perder uma grande conselheira e um baluarte da cidade. Sempre respeitou dona Maria, como se ela ditasse as normas. Segura firmemente o velho terço ensebado que Maria costumava carregar. Reza por um instante e em seguida o coloca entre as mãos travadas do cadáver. Com um certo desprezo, percebe que a pele está dura. Faz um esforço e finalmente o padre consegue encaixar aquele objeto sacro junto aos dedos daquele corpo sem vida.

Observa o rosto sereno de dona Maria vagarosamente, sem pressa. A multidão não se aproximava, respeitam aquele homem santo. Começa á rezar mecanicamente, sem prestar atenção nas palavras que profere. Enquanto isso, sua mente divaga sem rumo: “Agora, sem você, nossa cidade vai ser mais suja, mais pecadora!”, começa a se lembrar do confessionário, em que sempre fica excitadíssimo com os relatos apimentados que ouvia dos fiéis. “A cidade sem sua proteção vai ser um antro de pecado!”, pensa enquanto ainda reza febrilmente. “As pessoas vão cometer as maiores safadezas sem a sua eterna vigília!”. Finalmente, depois de terminada a oração, padre Onofre tange alvoroçado enquanto pensa: “Eu vou gostar disso!”, neste instante tem uma ereção.

Quando o padre vai deixando a sala, adentra o velho Francesco, o seu Chico. Fumava um cigarrinho de palha que acabara de enrolar. Está calmo, não faz nenhuma feição um pouco mais espevitada. Espera pacientemente sua vez de prestar as condolências para aquela mulher quase santa. Começa então a se lembrar de Júnior, o filho de Maria, que pegara seu pobre cachorro e o torturou até a morte. Na ocasião, Chico não falara nada, mas sempre imaginou que foram por ordens de dona Maria que o garoto fizera isso. Ela nunca gostou do animalzinho que sempre fazia balbúrdia perante seu portão. Nada mais natural do que culpar a criança. Hoje seu Chico sentia-se radiante, olhava de longe aquele nariz proeminente quase saltando do caixão e pensava: “Matou meu cachorro! Matou meu pobre Totó! Agora vai pagar no inferno!”. Aproximou-se do corpo e, discretamente, deu uma baforada de fumaça bem no rosto de Maria, que não podia mais reclamar.

Num cantinho, sem falar com ninguém, está Zefa, a atendente do Pronto-Socorro. Os braços cruzados e recostada na parede, apenas observa o cadáver e pensa: “Nunca mais vai ficar atrapalhando meu trabalho! Ainda bem que morreu, velha!”. Do outro lado, sentadas nos bancos laterais, a carola Fátima fala com Filó, uma velha frequentadora de velórios:

- Não ficou linda? Não ficou parecendo que está dormindo?
Enquanto as lágrimas escorrem por seu rosto, Filó responde:
- Lindíssima! Lindíssima!
Fátima conta orgulhosa:
- Fui eu que preparei o corpo... Mas a senhora acha mesmo que ficou bonito?
Repetiu, enfática:
- Lindíssima!
Com seu enorme corpo obeso, carregando um saco na mão, Carmem oferece uns biscoitos para as duas que conversavam:
- Aceitam? É receita nova. Uma homenagem á dona Maria.
Filó enfia a mão no saco e retira três biscoitos de uma vez:
- Aceito sim... Obrigada, dona Carmem... São do que?
- São de açúcar cristalizado... Uma delícia! – Responde Carmem. – E a senhora, dona Fátima, não vai provar?
Fátima declina gentilmente:
- Obrigado, dona Carmem, mas eu não estou com fome hoje... Velórios me fazem perder o apetite...
Filó morde um e suspira:
- Delicioso! Delicioso!
Carmem agradece e diz, enquanto vai saindo:
- Fico feliz que tenha gostado! Se quiser, eu estou vendendo o cento por treze... Se conhecerem alguém que queira, é só me avisar.

Se aproxima então do ataúde em que sua amiga dona Maria repousava. Não consegue derramar lágrimas, está comendo sem parar os biscoitos de açúcar. Apenas olha, mas seus pensamentos estão flutuando. Olha por olhar, nada vê, nada sente. Enquanto está ali, pensa: “Não posso perder o capítulo de hoje... A Gisele Cristina vai ficar sabendo que o Luiz Fernando dormiu com a Raquel.”.

Ouve-se um bafafá que parece aumentar quando Laurinha, filha de Bernardo, passa pela rua em frente á porta principal do velório. A velha Gertrudes vai até a porta e chama a atenção de Cida, que vai até lá também:
- Olha lá, Cida! A Laurinha... Aquela safada!
Cida concorda:
- É verdade, dona Gertrudes. Ela não tem vergonha na cara! Sair na rua depois de tudo que aconteceu!
- E olha como ela rebola! Parece uma meretriz! – Completa Gertrudes

Laurinha se afasta, não tem a menor idéia do que falavam, mas podia ouvir o alarido esganiçado daquelas pessoas. Pensa revoltada: “Mais um daqueles velhos morreu! Que morram todos!”

O delegado Velasquez chega alguns minutos depois. Com as mãos enlaçadas na altura do abdômen, ele vai em direção ao caixão. Sua feição é de um profissional, um homem público, prestando condolências á alguém muito querido na cidade. Permanece por alguns instantes, viajando em pensamentos dentro de sua cabeça: “Ainda bem que você morreu, sua velha! Ainda bem! Criticou Bernardo que estuprou a filha... Mas era eu que queria fazer isso, eu queria ter possuído minha própria filha!”, em sua mente atribulada, vai ainda mais longe: “Bernardo fez o certo! Já que alguém vai comer a filha, criada com tanto trabalho... Já que alguém vai ter que comer... Melhor que seja o pai!”. Continua ali, entre as pessoas que passavam.

No fundo, Zefa o observa e relata baixinho para uma dona que estava a seu lado:

- A senhora viu? Parece que o delegado espancou o Bernardo... Ele foi parar no hospital... Quase morreu. Deu traumatismo craniano, eu acho.
A senhora a seu lado espanta-se:
- Nossa! Mas ele mereceu, né?
Zefa fica exaltada:
- Merecer, mereceu! Ouvi dizer que ele fez mal prá própria filha, a senhora acredita numa coisa dessas? Prá própria filha!
- Esse mundo não tem mais jeito, não, minha filha! – Conclui a acomodada velha.

Lá pelas tantas, uma mosca pousa no nariz gélido de dona Maria. Cida começa a observar o movimento aleatório do inseto, que esfrega as patinhas e anda pelo rosto já em putrefação. Sente um delicioso frenesi quando a mosca deposita suas fezes sobre a pele sempre limpa de sua comadre.

Horas depois, o momento derradeiro em que o caixão deveria ser fechado estava se aproximando. Zuleica ainda está sentada no banco chorando inconsolável quando Fátima coloca a mão em seu ombro. Ela levanta os olhos arregalados e, tremendo, diz:

- Dona Maria... Não tinha um pecado... Era a pessoa mais pura que conheci... Linda! Ela não está linda?
Fátima responde:
- Sim, Zuleica! Linda!

Zuleica vira novamente o olhar para o chão e continua a chorar. Nada daquilo que dona Maria havia lhe dito pode macular a imagem virtuosa que Zuleica sente por aquela velha senhora. Sua alma parece ter se despedaçado e perdido completamente o último fio de sanidade que ainda possuía.

Antes que o funcionário do velório coloque a tampa sobre a urna funerária, o padre Onofre resolve fazer uma declaração, prostra-se diante de todos, abre os braços e profere:

- Estamos aqui... Amigos... Estamos aqui... Para dar o adeus definitivo para nossa querida dona Maria. Uma pessoa que viveu para a nossa comunidade. Uma pessoa que jamais será esquecida... – Todos prestam atenção enquanto o padre continua a falar: - Esta senhora foi, é e sempre será um exemplo de conduta, autruísmo, respeito e bondade. Uma alma, sem dúvida alguma, sem nenhuma mácula que possa sujar seu santo nome. Portanto, gostaria de comunicar-lhes que...

Dá uma longa pausa, todos permanecem vidrados em suas palavras. Com a voz embargada de emoção, padre Onofre conclui a frase:

- ... Gostaria de comunicar-lhes que... Vou entrar com o pedido de beatificação de dona Maria no Vaticano! Se tudo correr bem... Em breve será canonizada e... – Trêmulo de emoção, o padre dá uma longa olhada no corpo de dona Maria e conclui: - E... Esta senhora se tornará uma santa! Santa Maria de São José das Oliveiras!

Todos começam a aplaudir veementemente. Um clamor inunda aquela gélida sala.

A vida segue então seu rumo natural naquela cidadezinha onde todos se conhecem. Onde sentimentos obscuros são a tônica de uma sociedade que se alimenta da penúria, da desgraça. Uma sociedade que delicia-se em ter como sustento para sua sub-existência a alma do próprio irmão e se encontra no limite da auto-destruição. Uma sociedade que se encontra no limiar da antropofagia.

FIM

DIMITRI KOZMA - 1999

9 de julho de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 19 - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
Comece a ler pela parte 1, clicando aqui.

Parte 19

A imagem lhe vem a mente, aquele garoto cheio de vida, bonito, naquele sujo leito de hospital. Dona Maria era mais jovem, seus cabelos ainda eram pretos como a noite. Sua pele era lisa e suave como um pêssego. Nada se assemelhava a aquela mulher desgastada que falava agora.

Uma oscilação na eletricidade fez com que a luz se apagasse, talvez algum reator tenha se estourado devido aos relâmpagos que pipocavam por toda a parte. Zuleica leva um susto ao ver tudo escuro. Aquela tarde havia se tornado uma noite sombria. Dona Maria não fez nenhuma menção á luz, parecia estar em outro plano, num mundo só dela, que agora era compartilhado por Zuleica, que ouvia tudo aterrorizada. Ainda era possível ver os dois vultos naquela copa, não se moviam, com medo de cair. Zuleica então pede, sem jeito:
- Dona Maria... A senhora tem uma... Vela?
Responde vagamente:
- Sim, vou pegar...

Tateando as paredes ela chega á cozinha, abre uma gaveta que estava bem á mão e pega uma enorme vela, daquelas grossas, de sete dias. A acende com um fósforo e volta para a copa. Quando Zuleica vê o rosto de dona Maria sendo iluminado por aquela luz amarelada, leva um tremendo susto. Parecia fantasmagórica. As sombras formavam um desenho apavorante em seu rosto, que já era sinistro por natureza.

Dona Maria continuava a falar:
- Às vezes achava que estava sonhando... Era tão saboroso prá mim ver meu filhinho daquele jeito, tão indefeso, sem as pernas, com aquele ar melancólico... Não posso descrever o prazer que sentia quando via as lágrimas rolarem pelo seu rosto. – Suspira: - Maravilhoso!
Delicadamente dona Maria pinga um pouco de cera direto na mesa e gruta a vela ali. Zuleica se afasta como uma reação involuntária á aproximação de Maria, que permanece de pé e continua a contar:
- Aproveitei ao máximo aquele que era o momento mais feliz de minha vida... Gostava de colocar as mãos no peito do Júnior para que eu pudesse sentir melhor a dor, a angústia... Podia descrever com detalhes todo o sofrimento que ele passava.

Caminha em direção á janela, observa a chuva caindo, as enormes gotas escorrendo pelo vidro. O vento parecia aumentar cada vez mais, parecia o apocalipse. O trovejar ficava cada vez mais frequente, o que fazia dona Maria aumentar seu tom de voz para poder ser ouvida por Zuleica:
- Gostava de dar banho naquele corpo imóvel e mal-cheiroso... Gostava de limpar a merda mole que ele fazia na cama... – Maria sorri ao lembrar-se: - Mas o que eu mais gostava mesmo era de mexer naqueles tocos de perna infeccionados, sob o pretexto de trocar os curativos... Eu me deliciava! Aquelas moscas varejeiras passeavam por todo o quarto... Eu acariciava aqueles tocos tão delicadamente, sentia uma vontade de lambê-los... – Um pouco frustrada confessa: - Mas eu não cheguei a fazer isso...

Zuleica esboça uma cara de nojo em virtude a toda aquela depravação que lhe era despejada em seus ouvidos. Sente uma ânsia revirando seu estômago. Fazendo um desenho ao acaso no vidro embaçado, dona Maria começa a se entristecer novamente:
- Quando chegou a hora dele partir... Me vi novamente sem rumo, desnorteada!
Se transfigura novamente e vira-se para Zuleica:
- O velório? Ah... O Velório... Foi lindo, sabe? Ele recebeu cada coroa linda! Uma mais bonita do que a outra... Todos estavam lá... Nossa cidade tem essa característica... Todos são amigos nos momentos de dor...

Verifica que uma goteira pingava a seu lado. Dona Maria então coloca a mão embaixo, os pingos estavam grossos. Com aquela água em sua mão, molhou o rosto que estava quente e vermelho. Sentiu o suave frescor da chuva banhando sua face. Em sua mente, a imagem do velório do filho não consegue mais apagar-se. Ela se recorda:

- Acariciava aquela pele gelada... Sabe, se pudesse eu guardaria aquele corpo aqui em casa, no meu quarto, para me fazer companhia nas noites frias. Já pensou se isso fosse possível? Guardar os corpos de nossos parentes conosco para que possamos sempre nos lembrar deles? Não seria divino?
Pensa por um instante, imagina-se com todas as cadeiras daquela copa apinhada de cadáveres. Sua mãe, seu pai, Olegário e Júnior. Todos sentados ali lhe fazendo companhia quando se sentisse solitária nas noites insones.

As lágrimas parecem não acabar. A dor eterna da desgraça que permeia a vida de dona Maria é algo infindável. A luz finalmente retorna, mas a vela permanece acesa. Zuleica está boquiaberta diante da verdadeira face daquela senhora que é amada por toda cidade. O choro parece trazer algum acalento para aquela sofrida mulher, que nutria em seu interior um profundo ódio por todos. De costas para Zuleica, dona Maria pronuncia, quase que sem forças:

- Eu sempre vivi atraída pela desgraça dos outros... Quero que todos á minha volta sofram como cães... – Coloca a mão em frente ao rosto, envergonhada: - Eu fico feliz quando alguém está sofrendo, entende? Eu sinto alegria apenas quando alguém sofre... É como se eu me alimentasse um pouco da alma daquele que está pior que eu...
Zuleica finalmente se levanta, espantada enquanto dona Maria fala:
- Eu sei... Sei que não sou normal... Sou... Um monstro!

Levada por uma momentânea vertigem, causada pelo seu desvario ou por seu diabetes, dona Maria cambaleia e se apoia na parede para não cair no chão. O suor começa a escorrer pela sua velha face, a alma está em frangalhos. Estranhamente o coração se encontra, ao mesmo tempo, dolorido e radiante. Com a mão no fronte, ela solta um gemido de dor. Suas pernas se bambeiam e seus pés parecem não caber mais dentro daquele chinelinho. As varizes parecem ter vida, saltitando e latejando, fazendo-a quase desistir de ficar em pé.

Como se mergulhasse num profundo estado de exaltação permeado por um enlevo quase infinito, dona Maria arregala os olhos marejados e, sob o olhar atemorizado de Zuleica, começa a gargalhar, como se estivesse prestes a se defrontar com algo á muito tempo aspirado.

A saliva escorre por sua boca carcomida quando ela brada:
- O momento chegou... Zuleica... Você vai presenciar aquilo que esperei por toda minha vida... – Os cabelos de dona Maria se alvoroçam novamente, ela parece não se importar, continua a gritar: - O momento máximo e mais maravilhoso da existência carnal!

Temendo os atos daquela mulher ensandecida, finalmente Zuleica tem coragem de intervir:
- Dona M-Maria... Eu... - Pronuncia quase num murmúrio quando é interrompida:
- Não fale nada agora! Por favor... Não quebre o encanto! – Grita dona Maria.

Então o silêncio de vozes impera dentro daquela casa. Os pipocos das goteiras podem ser ouvidos lá dentro. Por fora, o som da chuva lava as ruas de pedra da cidade, trovões de todas as intensidades podem ser ouvidos e o barulho do vento chacoalhando as árvores frutíferas parece nunca mais ter fim.

Caminhando a passos lentos, segurando-se nas paredes para não cair, dona Maria vai em direção á cozinha. Lá, olha mais uma vez o pinguim sobre a geladeira, foi um presente de casamento. Observa os ladrilhos que revestiam as paredes e olha o coloridos daquelas flores estampadas. Da copa, Zuleica pode escutar o ruído da armário da cozinha sendo aberto. Era um velho armário com uma porta de correr que insistia em emperrar. Era ensebado, fazia muito tempo que dona Maria não o abria, pode-se perceber algumas teias de aranha abandonadas. Observa aquele armarinho repleto de bugigangas inúteis até encontrar o que almeja. Os dedos de dona Maria seguram firmemente um pequeno frasco empoeirado que repousava ali, no fundo do armário, há décadas.

Volta então para a copa, no caminho faz um enorme esforço para abrir aquele vidrinho. Chegando lá, Zuleica se assusta ao ver o que ela carregava nas mãos, mas não disse nenhuma palavra. Com algum esforço, dona Maria desrosqueia a tampa emperrada. Um cheiro forte passeou pelas narinas das duas, ressecando suas gargantas. Zuleica coloca a mão em formato de concha sobre a boca e o nariz, tentando evitar sentir aquele odor. O que, diga-se de passagem, é uma tarefa difícil, quase impossível.
Utilizando o conta-gotas que vinha junto com a tampa do frasco, dona Maria despeja alguns pingos do líquido na xícara de chá que Zuleica havia bebido, o cheiro ficou mais forte. Ainda havia um pouco do chá ali, mas dona Maria completou a xícara despejando do bule o que faltava.

Nenhuma palavra, nada. Zuleica temeu por sua segurança ao ver aquilo, mas resolveu aguardar para ver até que ponto ela chegaria. Com as mãos segurando firmemente aquela xícara, dona Maria fecha os olhos e abaixa a cabeça. As lágrimas fluíam de uma maneira natural, não havia sinal nem de ódio, nem de ternura. Seu rosto era opaco, como uma tela em branco. Não havia nenhum sentimento refletindo em seu semblante naquele momento. De uma maneira quase que sagrada, ela bebe com um só gole aquela mistura amarga de chá e formicida.

Imediatamente a xícara foge de sua mão, caindo e se estilhaçando. O ruído do vidro partindo-se provoca um sobressalto em Zuleica, que não sabe o que fazer diante de cena tão bizarra. Sem nenhuma reação, ela apenas grita em pânico. Apoiada na parede, escorregando aos poucos está dona Maria. Com um fogo infernal queimando por dentro, sofrendo de fortes convulsões, perante a um fim iminente, ela conclui, em meio á tosses secas:
- É como... Eu... E-Esperava...

A garganta parece estar se dissolvendo quando percebe o gosto de sangue em sua boca. Uma ânsia invade seu estômago, que revira-se como uma batedeira. A tosse se intensifica até o limite do insuportável enquanto a tempestade que cai lá fora abranda aquele momento. Aquele ardor que latejava seu corpo parecia purificar sua alma. Os olhos quase saltavam de suas órbitas enquanto ela ia escorregando, com as costas na parede, até alcançar o chão. Ainda permanece sentada, sentindo cada instante de sua hora derradeira. Zuleica não tem coragem de se aproximar, fita tudo de longe, berrando sem controle.

Apesar dos olhos arregalados dona Maria transmite uma certa pureza em sua maneira de observar aquilo tudo. Uma goteira pinga em sua cabeça, a água se mistura com o suor e a saliva. Pouco a pouco, entre fortes espasmos, ela vai tombando no chão. Uma baba espessa e amarelada vaza de sua boca enquanto tosse. O pescoço parece pulsar e dá a impressão que vai explodir á qualquer momento. As mãos acariciam o estômago que parece não mais ter vida fluindo. Pouco á pouco a tosse vai diminuindo. As convulsões se abrandam. O movimento fica cada vez menos frequente. É ouvido então um suspiro, um último suspiro, aliviado.

Finalmente, perante o olhar atônito de Zuleica, dona Maria cala-se para sempre. Em seu rosto, um semblante satisfeito. Como se estivesse refletindo um sentimento de dever cumprido. Uma vida repleta de felicidades. Aquela boca que escorria uma gosma pegajosa parecia sorrir. Os olhos arregalados repletos de veias estouradas, tinham um brilho intenso, parecia cristalino, espelhado. Na morte aqueles olhos estavam cheios de vida. A chuva permaneceu durante aquela tarde inteira, lavando definitivamente as ruas de São José das Oliveiras.

CONTINUA

25 de junho de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 18 - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
Comece a ler pela parte 1, clicando aqui.

Parte 18

Zuleica, boquiaberta, imediatamente parou de falar. Ainda arfando, dona Maria observa o líquido escorrendo lentamente naquela parede rachada pelo tempo. Seu olhar reflete todo o ódio guardado durante sua existência, um ódio irracional por tudo e por todos. Ela cerra os dentes e sua feição toma uma forma quase demoníaca. As mãos permanecem fechadas, contraídas de tensão. As estrelas que pipocavam em seus olhos diminuíram, mas a tontura e a dor no estômago continuavam igualmente fortes. Sua mão parece tremer involuntariamente, como se finalmente tivesse despertado a sua besta interior.

Após alguns minutos observando aquele chá escorrer, finalmente dona Maria, ainda transtornada, espalma suas mãos sobre a mesa, que não caiu por pouco quando ela se levantou subitamente. Zuleica permanece ali sem reação alguma, não tem a mínima idéia do que deve fazer. Maria olha para frente, não focaliza nada, apenas olha para o infinito. Já não existe mais razão. Aquele ato descomedido praticado por ela, de certa forma, fez com que sentisse um tremendo alívio.

Dona Maria diz, com voz quase nula, enquanto uma baba escorre de sua boca:
- Não posso... Mais suportar!
Profere então um grito de desespero, como se acabasse de acordar de um sono letárgico, se libertando de amarras invisíveis. Um brado que transmite uma mágoa incomensurável. Lembrava o grito dos porcos sendo mortos sem piedade nos abatedouros. Depois de mais de setenta anos guardando sentimentos obscuros, depois de viver toda uma vida ostentando um falso semblante de boa samaritana, finalmente dona Maria pode expulsar com veemência aquilo que na realidade sente, berra:
- Malditos! Malditos!

Zuleica não consegue esboçar o menor movimento, está petrificada de terror. Dona Maria então abaixa a cabeça, seus cabelos soltos escorrem por sua face, como se tentasse esconder-se da vergonha que sentia. Suas mãos permanecer apoiadas na mesa, como uma muleta para sua alma. A janela range irritantemente, batendo ao sabor do vento que uiva lá fora. A chuva parece se intensificar, como se ela representasse o estado de espírito de uma insandecida Maria.

Cabisbaixa ela então toma fôlego e começa a falar:
- Eu... – Respira fundo e continua: - Eu... Não posso mais guardar isso comigo... Tenho que falar com alguém... Eu... Não sou normal...
Zuleica nada responde, apenas escuta quando dona Maria finalmente inicia seu relato:
- Eu nunca... Nunca gostei do meu marido... Aquele porco imundo! Nunca gostei dele... Sentia nojo quando ele me tocava... – Faz uma cara de nojo: - Aquele corpo encima de mim... Aquele cheiro que ele tinha... Sem contar quando ele me batia... – Subitamente sorri: - Fiquei feliz quando ele arranjou uma amante e eu não precisava mais dormir com ele.

O suor escorre pelo rosto amarfanhado, dona Maria passa a mão na testa e continua:
- A única coisa que eu não podia aceitar era quando ele... Ele estava dando todo o dinheiro para aquela vaca! – Choraminga: - E eu tinha um bebezinho de colo... – Enfurece-se novamente – Mas aquele maldito não ligava para nada! O Olegário... Só queria saber do seu próprio prazer!
Aperta firmemente as mãos entre a barriga, Zuleica continua estarrecida, escutando aquela confissão. Prosseguia:

- Depois que ela foi embora o Olegário ficou um farrapo! Fumava como um condenado e bebia sem parar... Começou a ficar doente... uma tosse que não parava... Dores pelo corpo... – Dona Maria raspa a unha nas reentrâncias da madeira da mesa, tentando desviar a atenção que Zuleica prestava em seu rosto: - Um dia resolveu procurar um médico e o diagnóstico veio como uma bênção prá mim... – Ergue o rosto orgulhosamente e sorri: - Câncer!
Zuleica ficou assustada com aquela feição. Nunca havia visto uma pessoa se transfigurar tanto assim. Parecia que aquela doce dona Maria já não existia mais, em seu lugar apenas via o olhar da crueldade, estampada naqueles olhos negros. Sem se importar com o que Zuleica estaria pensando, dona Maria segue seu relato:

- Você não imagina como eu gostei dessa notícia... – Seus olhos brilhavam apaixonadamente: - Pouco á pouco o Olegário definhava... Aquele homem forte não existia mais. Em seu lugar havia um velho... Repleto de feridas... Deitado numa cama... Mas você não imagina o que aconteceu...
Pausa por um instante, o ruído das goteiras pingando por toda a sala pareciam bombinhas de São João em dia de festa. Dona Maria ignora aquele som irritante e diz:
- Foi até engraçado... – Sorriu como se fosse contar uma piada e disse: - Eu comecei a gostar dele... Aquele corpo apodrecendo aos poucos me atraía de uma maneira que eu nunca havia sentido antes... Me lembro da primeira vez...

Se lembrando de cada detalhe, revivendo tudo aquilo que havia marcado como uma tatuagem sua vida, ela diz:
- Aquelas feridas cheirando mal... O pus jorrando, encardindo aquela cama que Olegário ficava... – Sorri abertamente: - Eu respirava aquele ar com alegria. Confesso que às vezes ficava algumas horas cheirando os trapos velhos... – Coloca uma das mãos sobre o peito, fecha os olhos e inclina a cabeça para trás. Nem se lembra mais da tontura que sentia, sussurra: - Aquele cheiro de pus misturado com o de mijo... – Quase que tendo um orgasmo, dona Maria faz a exclamação com voz arfante: - Maravilhoso! Maravilhoso!

A bíblia dormia sobre a mesa, Zuleica a segura com força, seu coração batia acelerado como nunca havia acontecido antes. A adrenalina fluía por seu corpo na velocidade de um torpedo. Queria dizer algo, mas havia alguma coisa que a impedia. Estava prestando a maior atenção em cada palavra que Maria pronunciava:
- Quer saber uma ótima diversão que gostava de fazer? Quer?
Zuleica nada responde, mas pensa: “Sim! Conte-me.”, sem esperar resposta, Maria, quase que descrevendo uma brincadeira infantil, conta:
- Eu gostava de deixá-lo dias sem nenhuma comida... Adorava escutar os gemidos secos e desesperados daquele velho! Eu me lembro nitidamente... Moscas despejavam larvas sobre as pústulas abertas... Gostava de ver aqueles bichinhos se arrastando pela carniça!

As lágrimas então começam a brotar e escorrer pelos sulcos do rosto de dona Maria quando ela se lembra:
- Mas... Infelizmente não durou muito... – Enxuga o nariz que escorria, passando levemente as costas da mão e prossegue: - Em menos de dois meses estava terminado!
Numa súdita mudança de humor, ela deixa de chorar e novamente sorri, enquanto tira os fios de cabelo que insistem em escorrer pelo seu rosto:
- Mas ele me deu um último dia de felicidade... No velório!
Zuleica já não fica tão boquiaberta como estava, aquela história que ouvia parecia prender sua atenção.

- Eu chorava como nunca... Me descabelava... Cheguei até á rasgar minha roupa... O Júnior ainda era pequeno, deveria ter uns nove anos... Não entendia direito o que estava acontecendo... A cidade compareceu em massa ao velório do Olegário. Ele era bem conhecido por aqui... Todos estavam lá... Lembro-me de cada um dos presentes...
Dona Maria parecia terna ao contar aquele episódio, transmitia uma docilidade obtusa em seu olhar:
- Dei um beijo naqueles lábios gelados como nunca havia dado em vida... Minha língua passeou pela boca sem vida, pude sentir a aspereza de sua língua enrolada, parecia um bife... Passeei mais por dentro de sua boca e senti cada dente que faltava, acariciei aquela gengiva que estava apodrecida... Descascava... E os pedacinhos de carne podre vieram para minha boca... A baba escorria pelo seu rosto, que estava naquele caixão estreito.

Seu olhar parecia de eterno gozo:
- Estava pendurada naquele caixão, debruçada sobre o corpo de meu marido... Toda cidade chorou ao ver aquela triste cena... Imaginava a dor que eu sentia... – Dona Maria sorri sardônicamente: - Mas não era dor não! Naquele momento em que minha língua estava passeando pela boca de meu marido... Eu senti o gosto adocicado da morte... Então me viciei.

Aquelas imagens estavam nítidas em sua mente como um filme. Repentinamente, sua risada se fecha novamente e ela volta a ficar séria, quase que choramingar. Afasta-se da mesa e vai em direção á porta da cozinha. Zuleica permanece ali, apenas ouvindo. Com os braços em laço, dona Maria é grave:
- Minha alegria tinha acabado ali... Depois que enterraram o Olegário eu estava sem um rumo em minha vida...
Zuleica apenas pensa: “E seu filho?”. Como se fosse possível ler a mente, dona Maria diz:
- Tentei seguir minha vida... Claro que não podia casar-me novamente, apesar de ser jovem ainda... Então dediquei toda minha vida ao Júnior... – Faz uma cara brava: - Apesar de ele ser um porco como o pai!
Vira-se nervosa com o dedo em riste:
- Ele só me atormentava! A vida dele era me dar trabalho! Comia como um leitão! Não tinha modos, sabe?

Volta a entrelaçar os braços:
- Uma vez ele pegou o cachorro do seu Chico... Ele gostava tanto do bichinho... Mas era um cachorro infernal! Fazia uma anarquia aqui na minha porta! – Conta feliz por dentro e ao mesmo tempo indignada: - Torturou o bicho até morrer e espalhou os pedaços por toda casa... Isso são modos? – Sorri um pouco orgulhosa: - Imagina o susto que eu levei quando encontrei a cabeça do cachorro dentro do forno... Coitado do seu Chico... Nunca mais esqueceu do bichinho... – Olha para o lado e diz sarcasticamente: - Mas criança é assim mesmo, né?

Dona Maria para e pensa por um instante se deveria, ou não, falar, estava disposta a soltar a língua e então revela:
- Mas quando ele tinha quinze, dezesseis anos, eu percebi alguma coisa estranha nas atitudes dele... Parecia mais delicado que os outros meninos da mesma idade... – Brada raivosamente: - Meu filho era delicado demais! Como uma mãe pode aceitar uma coisa dessas? Me diga como?

Não obteve resposta. Desesperou-se ao lembrar:
- Uma mãe que cria o filho para que seja um homem! Como uma mãe pode aguentar um filho... – Maria hesita antes de conseguir pronunciar, finalmente toma coragem e diz: - Afrescalhado!

Zuleica comprime a bíblia contra seus fartos seios. Dona Maria continua a falar sem interrupções:
- Ah! Se quer saber a verdade... A única alegria que o Júnior me deu foi o bem-dito acidente com aquele trator... Você não deve saber da história porque era muito jovem na época... Todos nessa cidade sabem que ele trabalhava na lavoura e acabou encontrando um caminhão desgovernado pela frente! Perdeu as duas pernas... – Dona Maria sorri quase que embevecida por sua voz: - Sabia que alguma coisa eu ganharia de recompensa por criar aquele traste inútil durante vinte anos... E que recompensa! Dois anos no paraíso.

CONTINUA

3 de junho de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 17 - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
Comece a ler pela parte 1, clicando aqui.

Parte 17


O céu estava nublado, dona Maria andava á passos largos pela rua, rumava em direção à casa da solteirona Zuleica, levava uma sombrinha florida para se precaver de uma eventual chuva. O vento assobiava e chacoalhava as vestes daquela velha senhora que avançava a muito custo. As folhas secas planavam leves por toda a rua, sem direção. Finalmente chega á porta de Zuleica. Bate palma chamando-a e é prontamente atendida:
- Dona Maria! Que prazer a senhora aqui... Entre por favor, vou preparar um chá... – Diz Zuleica, que usava um lenço na cabeça.
Dona Maria estava com um olhar nunca antes reparado por Zuleica, parecia exultante, não tinha mais aquele semblante triste que sempre a caracterizou. Vai direto ao assunto:
- Não, obrigado, Zuleica. Bem, gostaria que fosse até minha casa hoje á tarde... Quero conversar com você.
Ainda estranhando aquela fisionomia, imaginando que havia alguma coisa diferente ali, Zuleica responde:
- Claro que eu vou, mas a senhora não poderia me adiantar nada?
- Não posso... Apareça em casa depois do almoço, sim? A gente toma um chá com biscoitos e conversa um pouco...
Zuleica, que via em dona Maria um ídolo, prontamente aceita o convite:
- Combinado!
Olhando para o céu, as nuvens pareciam mais acinzentadas, temendo a chuva que se aproximava, dona Maria diz:
- Bem... Parece que vai cair um pé d´água dos diabos... Acho que já vou indo. Zuleica, estarei te esperando, certo?
Confirma:
- Claro! Nem que chova canivete, eu estarei lá.
Despedem-se e dona Maria volta para sua casa. Parecia feliz. A chuva não vem, os céu escurece cada vez mais, mas nada de chuva. O mormaço quente parece que aumentou, tornando-se insuportável ficar em casa com as janelas fechadas.

O almoço, dona Maria prepara com um esmero nunca antes prestado. Frita um enorme bife de alcatra com dois ovos estrelados por cima. Fazia muito tempo que dona Maria não comia carne, seu estômago frágil não permitia, além do mais, repetia sempre a frase que aprendera não se sabe onde: “carne dá câncer”. Mas hoje estava sentindo uma estranha necessidade de sorver qualquer tecido animal. Se empanturra daquele alimento com uma sofreguidão de dar inveja ao maior dos glutões. Enquanto comia, pensava: “Estou comendo câncer. Estou comento pelotas de gordura que vão virar um câncer dentro de mim.”, ruminava aquela carne dezenas de vezes, quando a ingeria, pensava: “Estou engolindo um tumor!”. Á medida em que comia, ia mastigando cada vez menos. Esta idéia fixa não saía de sua cabeça. Parecia que sentia o gosto do carcinoma sebento em sua boca cada vez que mordia aquela carne. Os últimos pedaços, dona Maria engoliu praticamente inteiros, sentindo, com enorme dificuldade, aqueles nacos passando por sua estreita goela.

Após comer, percebe que alguns fiapos de carne ficaram presos em sua gengiva, aquilo doía muito. Quando ela coloca o dedo, percebe um enorme buraco, uma cratera, em seu dente. Era uma cárie enorme, que corroeu até a raiz. Seus amarelados dentes eram fracos, restavam apenas alguns, a maioria foi extirpada quando era mais jovem. Ironicamente parecia não se importar com aquilo, fez pouco caso. Abriu a geladeira e havia um pouco de doce de leite, comeu tudo com fatias de queijo fresco. Parecia não se importar com o seu diabetes.

Em seguida, vestiu sua melhor roupa, um casaco de tricô tecido por sua mãe há muito anos. Abriu a caixinha de jóias e espetou sobre o casaco um broche de borboleta, cravejado com pedrinhas reluzentes que imitavam diamantes. Abriu a porta dos fundos e deu uma volta pelo quintal, as folhas espalhadas estavam voando como num rodamoinho, pareciam bailar. Virou-se para a roseira que acabara de florescer, delicadamente alisa uma das flores que desabrochara. Seu olhar é terno, sereno, parecia melancólica. Colhe algumas folhas de camomila com uma tenuidade inédita para ela. A roupa se alvoroçava no varal, ela olhou para o céu e viu que o dia estava virando noite. Enormes nuvens cobriam o sol e escureciam toda a cidade. Com muita calma, ela volta para dentro de casa e liga o fogo, colocando uma panelinha com água para ferver. Em seguida senta-se no sofá e fica á espera de Zuleica.

O relógio marcava uma hora e alguns minutos quando dona Maria ouviu palmas no portão. Era Zuleica, berrando para abrir, pois tinha começado a garoar forte e não tardava a advir uma tempestade. Dona Maria abre a porta calmamente, cumprimentando a amiga mais jovem. Zuleica, por sua vez, era mais elétrica, trazia um guarda-chuvas numa das mãos e a inseparável bíblia na outra, debaixo do braço carregava uma caixa:

- Dona Maria! Vim o mais rápido que pude... Saí correndo porque começou a chover... Nossa, estou toda suada... – Dizia Zuleica enquanto entrava pela porta, chacoalhando um pouco o guarda-chuva e deixando-o aberto no chão da varanda.
Dona Maria, não esboçava muito sentimento. Apenas observava com o olhar vago. Ofereceu:
- Quer um chá, Zuleica? Estou acabando de ferver a água.
- Aceito... Se não for muito incomodo. – dizia enquanto esfregava as mãos pelo corpo tentando se secar.

Lentamente dona Maria vai até a cozinha, no caminho passa pelo quadro em relevo da “Santa Ceia” que estava pendurado sobre a porta, quase no teto. Olha aquela cena, que já havia visto muitas vezes, como se fosse a primeira. Percebe a imagem de Jesus Cristo segurando aquele cálice sagrado, os apóstolos a seu lado. Uma imagem que sempre estivera em seu inconsciente, mas que nunca havia reparado na beleza daquela representação. “Jesus! Como você é bonito.” Pensa ela, já entrando na cozinha e colocando as folhas de camomila na água fervente. Para puxar assunto, gritou, perguntando para Zuleica, que estava na sala:

- Me diga, Zuleica, como vai a vida?
Enquanto terminava de esfregar as mãos pelo corpo, a solteirona berrou de volta:
- Vamos indo, dona Maria... Vamos indo. Mas eu fiquei chocada com a dona Cida.
Já aguardando o que viria, enquanto coava o chá numa peneira sobre um velho bule amassado, dona Maria pergunta:
- Mas o que aconteceu?
- Foi hoje cedo prá delegacia... Ela disse pro delegado que vai se separar do marido. – diz Zuleica, já aparecendo na porta da cozinha, olhando para dona Maria.
- Não me diga! O marido dela é safado... Merece! Coitada da dona Cida, né? – Termina de colocar o chá no bule e deixa a panelinha encima do fogão. Em seguida pega a bandeja que já estava preparada, com duas xícaras, colheres e um lencinho rendado como apoio.
- Eu rezei tanto para que o marido dela, o seu Germano, parasse de beber para que ela pudesse ter paz... E agora a senhora viu o que aconteceu? – Dizia Zuleica, apoiada na porta.
- Sim... Sim... – Dona Maria parecia avoada. Não ouvia muito o que Zuleica dizia. Pegou um recipiente de vime e colocou alguns biscoitos doces cobertos de açúcar que estavam num vidro tampado á rolha.

Zuleica permaneceu ali, observando, quando então se ofereceu para ajudar:
- Dona Maria, posso ajudar?
- Leve isso para a mesa da copa. – Dizia enquanto lhe entregava a bandeja com o chá e os biscoitos.
Prontamente Zuleica fez o que dona Maria lhe pediu. E foram as duas para a copa, conversar. Zuleica estranhou, dona Maria não havia colocado ao menos uma toalha de mesa. Justo dona Maria, que sempre se preocupou com os detalhes, mas Zuleica não disse nada á respeito.
Trocando amenidades, o chá segue seu ritmo calmo. A chuva parecia aumentar e dona Maria teve que acender a luz da copa, pois lá fora ficava cada vez mais escuro. Uma tarde sombria, realmente uma tarde que há muito tempo não acontecia naquela cidade.
Dona Maria comia um biscoito atrás do outro, Zuleica lhe chama a atenção delicadamente:
- Dona Maria... A senhora não acha que está exagerando no doce? Não se lembra do seu diabetes?
Enquanto devora mais um, a velha faz pouco caso:
- Ora... Que diferença vai fazer uns biscoitinhos? Agora me conte, Zuleica... Como vai a Laurinha? Faz tempo que não á vejo...
Zuleica bebe um gole do chá, mas está muito quente e o coloca novamente sobre o pires, responde então:
- Ouvi dizer que ela já saiu do hospital... Está morando sozinha naquela casa. Fui tentar conversar com ela, mas ela não queria falar comigo. Me destratou, veja a senhora!
Enquanto agita o chá com uma colher, dona Maria diz, ternamente:
- Você é uma santa. Zuleica! Não dê bola para ela... Isso é inveja. Ela queria ser uma pessoa imaculada como você é.
Lisonjeada, Zuleica responde:
- A senhora é que é uma santa. Dedica sua vida á Deus e aos necessitados. Vive só para isso... A senhora deveria ser canonizada.
Ia levando a xícara á boca, mas para o braço no meio do caminho e fala:
- Exagero seu, Zuleica... Eu sou como qualquer outra pessoa...
- Imagine só se é... A senhora é a pessoa mais pura e generosa que eu já conheci... Eu queria ser como a senhora... Esse é meu sonho. – Alegra-se ao dizer isso, uma declaração de admiração deslavada.

Dona Maria desiste de beber o chá, coloca-o novamente sobre o pires, fecha os olhos, dá um forte suspiro e com muita dificuldade conta:
- Eu... Eu estou cansada de viver nesse mundo...
Zuleica concorda enquanto sopra para esfriar o chá, a fumaça faz um bonito desenho no ar:
- Sim... Um mundo onde só existe a maldade... Pessoas santas como a senhora sofrem pelo bem da humanidade...

Maria nada diz, apenas fita a xícara, segurando-a com as duas mãos, seu olhar é vago, quase um olhar cadavérico. A dor em seu estômago começa a voltar, trazendo um pouco de impaciência. Aquela tontura que sentia quando exagerava no açúcar estava voltando á galope. Zuleica continuava a falar sem parar:
- Onde já se viu viver num mundo assim? Onde as pessoas querem sempre o mal das outras. Pessoas matam sem limites... Outros traem... Um mundo onde as pessoas não conhecem Deus, todo poderoso. – Aquela fala de Zuleica vai se tornando monótona e repetitiva: - Porque é Deus, e somente Deus, que pode curar essas pessoas da inveja, da maldade, da estupidez. Deus é único! Porque sem temer á Deus, o homem vai se destruir...

As palavras proferidas por Zuleica parecem que flutuam pela cabeça de dona Maria. Ela não está prestando atenção no que ela diz, apenas escuta o som da voz. Um som esganiçado, irritante até, mas um som familiar. É isto que importa no momento para dona Maria, escutar um som que ecoe familiar em seus ouvidos. A tontura fica cada vez mais forte, a sua vista começam a fulgurar estrelas multicoloridas. O barulho da chuva, que cai forte, batendo na janela, ajuda a dar um ritmo a este espetáculo audio visual, um pandemônio de luzes e sons que já não fazem mais sentido algum. Enquanto isso, Zuleica não parava de falar um minuto sequer.

Aquilo começou a subir á cabeça de dona Maria de tal forma, de uma maneira tão obtusa, que num rompante inesperado, com toda a força que ainda lhe restava, derruba a cadeira ao levantar-se e atira furiosamente a xícara que tinha entre as mãos em direção á parede. Os cacos voaram para todos os lados, espalhando o chá ainda quente por toda a copa.

CONTINUA

28 de maio de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 16 - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
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Parte 16

Naquela noite, comera uma manga espada inteira antes de se deitar. Seu estômago não aguenta e lateja como nunca. Na cama, dona Maria estrebucha sem sono, o suor escorre sem limites deixando o travesseiro todo úmido. Ela pensa: “Vai ser agora! Agora que eu morro! Aqui sozinha!”. Senta-se na cama, as suas costas doem como nunca, parece estar toda moída. Uma tontura lancinante permeia por sobre sua cabeça. Com alguma dificuldade, vai até a cozinha beber um copo d´água, sua boca está grudada de tão seca. Olha no relógio de parede e verifica que ainda é madrugada.

“Morrer de madrugada! Deus... Não me permita morrer de madrugada... Sozinha!” – Pensa ela, enquanto observa as sombras das árvores balançando ao sabor do vento refletindo na mesa da copa. O silêncio é absoluto, apenas quebrado pelos grilos do jardim e o tic tac irritantemente repetitivo do relógio.

Nervosamente, dona Maria lava o rosto na pia da cozinha eliminando um pouco o suor que deixava sua pele pegajosa. Vai até o banheiro e urina abundantemente. Sua uretra ardia como nunca, um ardor que parecia não ter fim. Sentia um cheiro forte de amônia exalando do vaso sanitário. O suor começara novamente.

Pé ante pé ela volta para seu quarto, não sem antes fazer o sinal da cruz ao passar pela imagem da Virgem Maria que juntava poeira na mesinha de canto ao lado da porta. Senta-se novamente na cama e começa a rezar incessantemente. Seus olhos estão marejados. Ela pensa: “Não existe nada pior do que morrer sozinha!”. As árvores que se alvoroçam no quintal parecem querer fazer companhia á ela numa hora tão difícil.

Num último apelo que faz á Deus, dona Maria pede: “Deus! Não me deixe morrer agora... sozinha! Por favor, Deus todo poderoso! Não me deixe morrer sozinha!” Com as mãos espalmadas, ela implora: “Eu deixarei o Senhor todo poderoso me levar... Sei que minha missão já está cumprida aqui na terra! Sei que minha alma repousará á seu lado... Mas só suplico que não me deixe morrer sozinha!”

Nenhum sinal, nada. Dona Maria ainda continua com aquelas dores no estômago. Uma forte queimação que não para. Deita-se novamente, mas aquele travesseiro úmido deixa uma impressão estranha, mesmo assim ela permanece deitada. Pega seu velho terço na mesinha ao lado da cama e começa a orar, oração esta que se segue até ela pegar no sono novamente.

Já é dia, dona Maria abre os olhos e antes mesmo de se levantar ela pensa: “Graças á Deus! Estou viva! Não morri sozinha.”, levanta-se mais disposta e agradeçe: “Obrigada, meu Deus! Obrigada por não me deixar morrer sozinha.”. Enquanto toma o chá de erva cidreira que fizera com as folhas que acabara de colher no quintal, ela se lembra do dia em que encontraram o seu Gumercindo morto, morreu sozinho em sua enorme casa. O corpo foi encontrado somente após uma semana. Já tinha entrado em decomposição, a pele alva estava preta, dura e cheia de vermes. Os olhos esbugalhados, pareciam querer saltar de suas órbitas. Realmente foi uma horrível maneira de se deixar esta vida. Dona Maria ainda era jovem quando presenciara este episódio. Ainda nem havia se casado quando adentrou naquela casa.

Ela vendia roupas de lã para ajudar a sustentar sua mãe, que não andava bem de saúde. O Gumercindo sempre costumava comprar suas peças, era um velho friorento, sempre andava impecavelmente trajado e jamais esquecia do cachecol. Naquele dia ela bateu palmas em frente á casa do velho senhor. Não obteve resposta e foi-se adentrando pela porta aberta, escancarada na verdade. Não tinha familiares, nada. Era um solitário no mundo. Aquele cheiro de carniça podre penetrou em seu nariz e nunca mais saiu. Parecia impregnado em seu pulmão. A casa estava suja, havia comida espalhada pelo chão. Foi entrando e delicadamente chamando o homem, que nada respondia. Teve que colocar um de seus cachecóis na frente a sua narina que já ardia perante odor tão abjeto. Quando chegou ao quarto, pode ver, deitado na cama, o cadáver do seu Gumercindo naquele estado deplorável. Aquela imagem ficou estampada para sempre em sua retina. Lembrou-se que ficou observando aquilo por um certo tempo, num estranho misto de repugnância e atração.

Aquelas veias estouradas, que traziam em seu interior um sangue escuro, coagulado, chamaram sua atenção. Ficou por algum tempo observando o caminho que aqueles bichinhos faziam pelo corpo, deixando uma rala gosma como rastro. Dona Maria nunca antes tivera tanta atração por algo tão funesto. Deveria ter uns doze anos, no máximo. Depois de finalmente perceber a gravidade daquilo, ela gritou de desespero chamando por ajuda.

Aquela imagem permaneceu em sua cabeça por dias, ou meses. O chá já está quase acabando quando ela começa a pensar: As únicas ternas lembranças que dona Maria levava se sua infância eram estas: Seu pai no caixão, a bonequinha de louça, Verinha, e o seu Gumercindo. Quando sua mãe morreu, ela já era crescida, casada com Olegário.

Dona Maria permanece ali sentada, olha para a xícara sem muito interesse e a balança, brincando com a pasta de açúcar que se acumulou no fundo. Nunca abusara do açúcar em virtude de sua doença, mas hoje sentiu uma enorme vontade de saturar aquele chá. Não sabia o porque, mas sentia esta vontade irresistível. Engole um pouco daquela massa adocicada e se lembra, ao mesmo tempo, de tudo que aquela maldita velha fez com ela, do tanto que sofreu nas mãos de sua miserável mãe.

Autoritária, fez com que ela se casasse com Olegário por considerar que ele tinha uma boa condição social. Jamais havia falado mais do que meia dúzia de palavras com o marido e já estava ali naquele altar, dizendo o “sim” á aquele homem nojento. Na sua infância, Maria apanhava todos os dias, parecia até que sua mãe a odiava, parecia que queria descontar sua raiva naquela frágil criança. Não se recorda da quantidade de vezes em que apanhou de vara verde, deixando avermelhados vergões na pele e negros vergões na alma. Quando se enlaçaram, a sua mãe os acompanhou, foi morar com o casal. Graças á Deus, três anos depois ela começou a enlouquecer, andava gritando pela casa de madrugada como uma desvairada, saía correndo pelas ruas sem direção e estava cada vez mais agressiva. Olegário começou a achar aquela situação insustentável e decidiu colocá-la numa casa de repouso que ficava na cidade vizinha.

Com enorme alegria, dona Maria recebeu a notícia de sua morte poucos meses depois. A imagem daquela mulher que tanto a tinha feito sofrer jazendo naquela mesa de concreto a deixou maravilhada. Todos olhavam para dona Maria com uma certa pena e ela deveria fingir muito bem para que não gerasse nenhum comentário malicioso, deveria fazer jus á aquele dó que todos sentiam. Ela era uma mulher formada, mas chorava como uma criança. O corpo de sua mãe era um farrapo humano, nas últimas semanas não comia mais, ficava amuada num canto daquele minúsculo asilo olhando as moscas que pousavam sobre sua pele, despejando larvas. Definitivamente aquela mulher não parecia com sua mãe, aquela mulher, outrora forte, estava ali inerte, sem esboçar nenhum movimento.
Finalmente dona Maria volta suas divagações ao presente. Os rostos sofridos daquela gente estava girando como um enorme carrossel por sua atribulada alma. “Graças á Deus! Não morri sozinha!” pensa ela, tentando esquecer um pouco das desgraças que permeavam freneticamente sobre sua vida.

CONTINUA

11 de maio de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 15 - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
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Parte 15

Entra na sala de Velasquez berrando:
- Delegado! Seu Bernardo violentou a Laurinha!
Estava se equilibrando apenas nos dois pés da cadeira e quase vai ao chão com o susto que levou:
- O quê?
- Isso mesmo que o senhor está ouvindo! O seu Bernardo violentou a Laurinha! – Repete dona Maria.
- Meu deus! – Levanta-se e diz: - Mas... Isso é muito grave. Como a senhora soube?
Pensa por uma fração de segundos e responde:
- Foi ele mesmo que me confessou... Disse para que não contasse a ninguém... Mas não posso deixar isso passar em brancas nuvens... O senhor deve fazer alguma coisa...
Velasquez vai pegando a chave e grita:
- Vou falar com ele...
Mas dona Maria segura seu braço, dizendo:
- Não adianta... Ele jamais vai confessar. Eu prometi que não falaria nada... Mas... A justiça deve estar sempre em primeiro lugar.
Tentando encontrar uma saída, o delegado pensa e então sugere a si próprio:
- Então acho que seria melhor falar com a Laurinha... Ela deve confirmar...
A velha dona Maria o interrompe mais uma vez:
- E o senhor acha que, em sã consciência, um filho vai acusar um pai? Acha? Ora, delegado...
- Mas, como podemos fazer? – Diz Velasquez, relutante, transparecendo ser um delegado sem a menor experiência.
- Simples. – Diz ela escondendo um sorriso. – O senhor deve acreditar em mim... Se o senhor confiar em mim, sabe que isso é verdade...
Ele a olha por alguns instantes, tem medo da retaliação do povo se essa notícia se espalhar e ele, como delegado, não tomar nenhuma atitude. Tem medo de que descubram que ele não tem nenhuma autoridade nem pulso firme para gerir aquela delegacia. Conhecia dona Maria de longa data e sabia que ela iria espalhar a notícia pela cidade. Aquilo o fazia tremer. Finalmente depois de relutar por alguns instantes, resolve:
- Certo! Claro que eu acredito na senhora. Amanhã mesmo vou mandá-lo para a penitenciária na cidade de Passos Dourados, acho que não podemos mais mantê-lo aqui...
Dona Maria se vira de costas para o delegado e esgarça um maravilhoso sorriso, tentando se conter, ela volta-se para ele:
- É assim mesmo que se faz, delegado. Parabéns.
- Espero que estejamos fazendo a coisa certa, dona Maria... – Fala o delegado Velasquez, ainda inseguro.
- Pode ter certeza que esta é a melhor solução. – Conclui dona Maria.
Despedem-se e ela sai da delegacia radiante, certa de ter cumprido mais uma boa ação á comunidade, expurgando mais um fruto podre de seu belo município.

Voltando à praça, dona Maria vê um bafafá estranho, percebe que está havendo um bate-bocas tremendo. Quando se aproxima mais, vê dona Cida e dona Carmem, uma gritando com a outra de uma maneira quase irracional. Em volta, diversos curiosos assistem a aquele bizarro duelo entre duas senhoras desbocadas. As palavras parecem tomar forma no ar: “Vagabunda mentirosa!” – “Corna! Chifruda!” – “Vai cuidar do seu marido!” – “Vá á merda!” – “Vai você! Trouxa! Chifruda!”. Aquele desfile de atrocidades que as duas pronunciavam parecia não ter fim, os ânimos estavam exaltados e por pouco não saiu tapa daquela discussão.

Dona Maria permanece ali, junto com os outros curiosos que queriam saber o que estava acontecendo ali. Mas Maria já sabia de tudo. Fora ela que havia plantado a semente da discórdia. Estava feliz em ver aquelas duas gordas velhas se digladiando sem pudor. Ali, no meio do povo todo. Um espetáculo gratuito, um circo.

O nível da discussão começava a diminuir cada vez mais. Mas dona Maria não queria se envolver, na verdade não poderia se envolver de maneira alguma, pois estava metida até o pescoço nessa confusão. Palavras de baixo calão eram pronunciadas de maneira mais direta, o povo se deliciava ao ver tamanho espetáculo repleto de grosseria.

Dona Maria começa a imaginar como seria maravilhoso ver aquelas duas leitoas gordas rolando no chão, uma mordendo a outra até arrancar pedaços. O sangue jorrando pelos poros. A roupa se rasgando e as duas nuas no meio da praça dando uma exibição de luta livre. Aquelas duas velhas guerreando até a morte naquela grama verde impregnada de fezes de cachorros. Imagina as unhas rompendo a pele branca, os seios flácidos sendo amputados apenas com a força das presas.
Mas ao cair na real, já estava tudo apaziguado. Alguns homens fortes conseguiram segurar as duas e levá-las para sua respectivas casas. Com enorme dificuldade, claro, pois elas não queriam encerrar aquilo de maneira nenhuma. Dona Maria olha para os homens que seguravam as duas velhas e pensa: “Estraga prazeres!”
Findo o burlesco espetáculo, os curiosos se retiram, não havia mais nada para se ver ali.

De tarde, resolve ir visitar dona Cida, quer saber o que aconteceu. Almoça uma abobrinha refogada que preparou ás pressas e sem delongas vai até a casa da comadre.
Ela atende a porta inchada de tanto chorar. Nunca, em todos esses anos que dona Maria a conhecia, viu dona Cida assim. Ela recebe sua comadre com uma visível indisposição, mas dona Maria não percebe, ou pelo menos finge não perceber, e diz:
- Dona Cida... Como a senhora está?

Ela pede para a comadre entrar com um sopro de voz:
- Entre, dona Maria... Não quero ficar aqui na porta...
Sentam-se no sofá da sala, a casa está um pouco suja, nada muito grave, mas não está aquele brinco que costumava ficar. Dona Cida tenta ser educada:
- Aceita um chá, dona Maria?
- Não, obrigada, vim ver como a senhora estava...
Olha para o teto, dá um longo suspiro e diz:
- Não estou muito bem, não, comadre... Eu acho que aquilo que a senhora me falou sobre o Germano era verdade...

- Porquê? O que foi que a senhora soube? – Pergunta dona Maria, com as mãos sobre o joelho.
- A Carmem... Estava passando pela praça e me xingou! Disse cada nome... Me chamou de chifruda, de corna... Ela deve saber de alguma coisa...
Dona Maria fica cintilante:
- Com certeza deve saber... Mas de que adianta saber mais? De que adianta? Seu marido é como qualquer outro homem... Um safado sem-vergonha... A senhora acha que vale saber mais para sofrer mais com a verdade?
Reluta:
- Bem... Não sei...
Dona Maria responde:
- Pois eu digo: Não vale, dona Cida!
Cida olha para uma pegada de lama seca no tapete e se lembra de contar:
- Ontem... Nós tivemos uma briga horrível... Ele chegou tarde em casa, fedia como um gambá... Mas não tinha bebido... O pé dele estava todo sujo de barro... Disse que o pneu do caminhão furou...
- Desculpa! Todos inventam desculpas! – Berra dona Maria.
- Pois eu também achei isso, então comecei a gritar com ele... Disse que ele tinha uma amante... Ele ficou nervoso, quase me bateu... Mas o Germano nunca levantou a mão prá mim, e não foi dessa vez que ele iria fazer isso...
Inerte no sofá, Maria fica nervosa ao ouvir aquilo, pensa: “Nunca bateu nela? Que marido frouxo é esse?” a interrompe:
- Eu acho que o casamento de vocês não tem mais futuro...
- Mas...
- Isso mesmo, dona Cida... Acho que é melhor cada um ir para seu lado... Você vê meu caso, por exemplo, eu não tenho mais marido e que falta me faz? Nenhuma! – Completa dona Maria, dando uma de conselheira sentimental.

- Mas... A senhora acha mesmo que eu devo me separar dele? – Pergunta a transtornada Cida.
Aproxima-se da comadre e aconselha:
- Olha... Na bíblia está escrito... A mulher deve ser submissa ao marido... Mas que marido é esse que trai? Que marido é esse? Ele é um canalha! Eu no lugar da senhora pedia a separação urgente...
Mas dona Cida se lembra, e cutuca dona Maria:
- Mas... A senhora não ficou com o Olegário mesmo sabendo que ele traía?
Meio sem-jeito, dona Maria acaba admitindo:
- Sim, é verdade... Mas minha história foi diferente...
- Como assim? – Pergunta Cida.
- Ele era um homem doente... Eu não podia me separar dele enquanto ele definhava aos poucos... Não eu! – Para por um instante e continua: - Mas o Germano é saudável... Não é?
- Fora o problema da próstata, ele é... – Diz dona Cida.
- Pois então... Não há nada que segure a senhora e a mantenha casada com ele... Nem filhos vocês tiveram...

Quando dona Maria fala isso, Cida começa a se emocionar, seu rosto que já estava inchado de tantas lágrimas, toma uma feição ainda mais triste. Ela, depois de limpar o nariz que escorria, diz:
- Eu perdi dois filhos ainda na barriga, estavam bem pequenos... Perdi um com dois e outro com quatro meses... Nunca mais tentamos... Quer saber a verdade... Faz mais de vinte anos que o Germano não me toca! Mais de vinte anos!

Uma alegria invade o espírito de dona Maria, que se esforça enormemente para não demonstrar isso:
- Mais uma prova de que ele tem uma amante... Uma amante ou várias... Vai saber...
Cida continua suas lamúrias:
- Eu as vezes passo as noites pensando como seria bom tentar mais uma vez... Mas ele me disse que estava impotente. Que não conseguia mais fazer... E eu fui deixando... Nunca imaginei que poderia ter uma amante. Nunca!
- Pois então... Faça isso! Separe-se dele! Sua vida vai melhorar muito. Muito mesmo!
Relutante, dona Cida aceita:
- Está bem, dona Maria... Eu vou fazer isso...
- É assim que se fala...

Dona Maria se levanta e se despede da comadre. Observava aquela mulher, que não era tão velha, deveria ter uns cinquenta e cinco, sessenta anos, no máximo. Em seu subconsciente ela pensava: “Sim! Isso mesmo! Separe-se! Se eu não tenho marido! Porque você deve ter? Sua velha gorda! Eu quero ver você engordar até explodir depois que se separar daquele bêbado nojento!”. Vai até a porta e diz:
- Estou torcendo pela senhora, dona Cida!

Sai feliz por ter conseguido arrebatar mais uma fiel que se dedicaria em tempo integral á igreja e a comunidade. Um sentimento de missão cumprida permeava sua alma.


CONTINUA

30 de abril de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 14 - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
Comece a ler pela parte 1, clicando aqui.

Parte 14

Dona Maria resolve dar uma volta pela cidade, debaixo de um sol lancinante que banhava sua pele. Raros eram os dias em que o calor não se fazia presente naquela região do estado. Passa em frente ao velório, que está vazio. Pensa: “Bem que alguém poderia ter morrido hoje.”, mas em seu ímpeto saudosista que sente, ela começa a se recordar de sua primeira vez.

Tinha quatro anos, Maria nunca havia ido a um velório. Quando seu pai morrera, os mortos ainda eram velados em casa. Era muito jovem para se lembrar, a única imagem dessa ocasião que a pequena Maria havia guardado era daquele caixão, bem mais alto que ela. Não conseguia observar dentro, apenas via o nariz proeminente de seu finado pai. Era cheio de pelos que saltavam da cavidade nasal. Tudo era escuro e ouvia os lamentos das pessoas que acompanhavam aquele momento pesaroso. Apenas de um momento dona Maria se lembra nitidamente: Sua mãe a levantando, aos prantos, e dizendo em tom autoritário: “Beija seu pai! Beija!”. A pequena Maria não sabia o que fazer, as velas que iluminavam o ambiente davam um aspecto fantasmagórico ao rosto do pai. Sua mãe insistia, a balançando para que o fizesse: “Vai Maria! Beija o seu pai!”. Aquelas palavras ecoaram em sua mente por anos e até hoje dona Maria se lembra dos gritos de sua mãe mandando beijar seu pai morto.

Mal falava e não conseguia entender direito o significado daquele momento. Sem escolha, sua mãe inclinou mais seu rosto até que seus delicados lábios tocassem na pele gélida daquele cadáver. Pode sentir o cheiro da morte, que a persegue até hoje. No instante seguinte sua mãe dizia: “Isso! Beija seu pai! Maria! Beija seu Pai!” Aquelas palavras repetiam-se em sua cabeça insistentemente. Era a única recordação que Maria levara daquele momento.

Em seguida, a velha senhora passa pela pequena delegacia. Está calma, lúcida. Olha aquela frente cimentada e o velho carro de polícia que servia ao município. A porta da frente está aberta e ela entra calmamente. Quando avista o delegado Velasquez sentado numa cadeira pouco confortável, falava ao telefone. Ela aguarda o término da ligação prostrada diante a mesa dele. Quando finalmente desliga, dona Maria diz:
- Delegado... Fiquei sabendo que conseguiu prender o seu Bernardo...

Ele se recosta na cadeira e diz, com um certo orgulho:
- Pois é, dona Maria. Conseguimos! Ele tá lá na cela... Não falei que a gente ia conseguir pegá-lo?
- Deus ajudou, seu Velasquez... Deus ajudou... – aproxima-se do delegado e pergunta: - Diga-me... Será que poderia ir até a cela falar com ele?
Velasquez reluta:
- Não sei... Não sei se é perigoso para a senhora...
- Ora! Conheço o seu Bernardo há mais de trinta anos... Ele não vai fazer nada não...
O delegado levanta-se, apanha e chave e diz:
- Tá certo, dona Maria... Quem sabe a senhora não arranca alguma coisa dele...

Abre uma pesada porta de chumbo que há anos não é movimentada. Bernardo foi o primeiro preso em mais de cinco anos naquela pacata cidade. O último preso foi um simples caso de roubo de galinhas, mas agora o assunto era sério, assassinato.

Dona Maria pode avistar de longe o velho Bernardo sentado no chão imundo da cela. Não existiam bancos nem ao menos um piso com ladrilhos. Ele estava sentado naquela fria laje úmida. Parecia aceitar seu destino, a cabeça abaixada não tinha coragem de se levantar para ver quem chegava. Velasquez diz, tentando aparentar dureza:
- Levanta Bernardo! Dona Maria veio falar com você!
Ele timidamente ergue o olhar, um pouco envergonhado e se levanta, aproximando-se da grade. O delegado sai, deixando-os a sós. Dona Maria olha para seu rosto sofrido por alguns segundos, percebe que nesses últimos dias, Bernardo envelheceu mais de dez anos. Os sulcos em sua pele mostravam um homem amargurado. Finalmente ela diz:
- Seu Bernardo... Porque o senhor fez aquilo?
Quase sem força na voz, ele diz:
- Dona Maria... Eu... Eu não pude aguentar... Ver minha Laurinha desgraçada por causa daquele... – Seu olhar se enche de ódio. – Daquele... Maldito! Daquele canalha!
- Seu Bernardo...

Antes que ela pudesse falar é interrompida. Segurando forte nas grades e colocando o rosto entre elas, Bernardo diz em tom mais alto, quase desvairado:
- Mas eu... Eu lavei a honra de minha família! Lavei! Honrei minha esposa que está debaixo de sete palmos! Minha Laurinha vai embora da cidade... Só vai voltar quando tiverem esquecido disso tudo...
Ela o repreende:
- Mas o senhor acha certo o que fez? Tirar a vida de um moço... Espancar sua filha? Acha certo?
As lágrimas vertem dos olhos avermelhados de Bernardo:
- Não... Não é certo... Dona Maria... Eu não... Eu não queria que fosse assim... Preferia nunca saber... Mas agora... Agora... – Levanta os olhos e pergunta: - A senhora me perdoa, dona Maria? Diga que me perdoa pelo que fiz...
- Não sou eu que devo te perdoar, seu Bernardo. O único que tem condições para isso é Deus... Está ouvindo? Somente Deus poderá abrir o caminho da redenção para você. – Diz dona Maria, friamente.
Bernardo comprime mais sua cabeça entre as grades da cela que está suja de ferrugem, seu rosto fica tingido de marrom acobreado. As lágrimas derramam incessantemente e ele apenas vocifera:
- Eu... Eu não devia ter feito isso... Não devia...

Dona Maria franze a testa e se aproxima da grade:
- Agora é tarde, seu Bernardo... Agora é muito tarde... Já foi feito... Eu vou rezar por sua alma. Para que Deus lhe alivie o mais breve possível. Lembre-se, seu Bernardo, o que fez não tem perdão. Você tirou a vida de um ser humano.

Ele chora baixinho, com a cabeça arriada. Dona Maria tira de sua bolsa um pequeno livrinho de Salmos, dizendo:
- Vou ler um salmo para você... Preste muita atenção... - Abre numa página marcada com um pedaço de papel rasgado e força sua vista para ler: - “Ó Senhor Deus, a quem a vingança pertence, ó Deus, a quem a vingança pertence, mostra-te resplandecente.” – Para, olha para o pálido rosto de Bernardo e continua: - “Exalta-te, tu, que és juiz da terra; dá a paga aos soberbos.” – Na medida em que lia os versículos, dona Maria ia se exaltando mais e mais: - “Até quando os ímpios, Senhor, até quando os ímpios saltarão de prazer?”, “Até quando proferirão, e falarão coisas duras, e se gloriarão todos os que praticam a iniquidade?” – Finaliza lendo: - “Reduzem a pedaços o teu povo, e afligem a tua herança.”.

Fecha o livro e olha fixamente para Bernardo. Ela nada diz, apenas olha para o chão, sem conseguir levantar o rosto. Após alguns momentos de silêncio, dona Maria dispara:
- Eu achei que este salmo era perfeito para o que aconteceu... Perfeito para o senhor, seu Bernardo...
Perdendo o rumo, Bernardo apenas aceita:
- Sim, Sim... É perfeito...

Dona Maria sai sem ao menos se despedir, apenas diz:
- Estarei rezando pelo senhor...
A porta de aço se fecha e Bernardo volta a ficar solitário naquele escuro cubículo mal cheiroso. A dor em seu coração parece ter se intensificado mais. Aquelas palavras que dona Maria leu parece que ficaram cravadas em sua alma. “Reduzem a pedaços o teu povo, e afligem a tua herança.” Parece se repetir sem cessar em sua amargurada mente.

Laurinha lhe vem á cabeça, aquela menininha meiga, uma aluna exemplar, um doce de pessoa. “Meu Deus... O que eu fiz com minha filha?”... Ao mesmo tempo em que a imagem daquele jovem lhe tira novamente a razão: “Maldito! Maldito sujo! Desonrou minha Laurinha!”. Um turbilhão se inicia. Bernardo segura furiosamente sua cabeça, que não para de latejar. Dona Maria ainda observa aquilo pela fresta da porta. Parece que seu trabalho estava dando resultados.

Bernardo começa a se contorcer no chão, parecia querer expulsar algo ruim que estava em seu interior. Olhando aquilo, a velha senhora pensa: “É o demônio se manifestando!”. Mas não há nenhuma ação paranormal, apenas um velho que desgraçou sua vida e a de duas outras pessoas se remoendo em remorsos e rancores. Olhando aquilo, dona Maria pensa: “Quem sabe amanhã não o encontram enforcado na cela?”. Imagina o cadáver de Bernardo com a língua de fora, babando uma saliva espessa, pendurado na grade depois de ter se debatido com fortes dores ao se enforcar durante aquela noite em que ele conviveria com seus mais íntimos pensamentos.

Estirado no chão, apenas rosna o nome de sua filha, não sabe dizer outra coisa a não ser: “Laurinha... Laurinha...”. “Velho safado!”, pensa dona Maria, “Deve ter abusado da filha! Com certeza abusou!”. Forma uma imagem mental da pequena Laurinha, ainda criança, sendo violentada pelo pai numa noite de chuva. Consegue imaginar cada detalhe, cada movimento do corpo do velho currando a pobre menina. Os gritos, o sangue jorrando do sexo deflorado. Os seios ainda não formados sendo mordiscados pelo velho asqueroso. Pode até ouvir a voz da criança gritando desesperadamente por ajuda: “Socorro! Por favor! Alguém me ajude! Socorro!”. O suor de prazer do pai sendo misturado com o suor de dor e medo da inocente filha.

Um ódio irracional toma todo o corpo de dona Maria, que quer ver aquele homem morto a qualquer custo.

CONTINUA

23 de abril de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 13 - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
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Parte 13


A madrugada chega e dona Maria volta a ter aquele horrível pesadelo, a parede se fechando, o tempo acabando. Dessa vez ela percebe que o caminho naquele corredor escuro que se estreitava em sua frente era um aclive. Ela parecia tentar escalar aquele curso cada vez mais. Porém, era em vão, o muro impedia sua passagem. Acordou de manhã novamente com aquela impressão de que seu tempo estava acabando. Tinha a nítida sensação de que em breve o ceifeiro viria buscá-la para repousar nos braços do senhor. Via sua vida acabando, sua idade era avançada e sua carne estava cada vez mais fraca. A tênue luz que varava pela fresta da janela permitiu que dona Maria olhasse suas mãos. As manchas senis cobriam toda sua pele enrugada. Se sentia uma jovem, mas olhando aquela mão crispada de aparência cadavérica, finalmente estava percebendo que a areia na ampulheta da vida estava terminando.

Uma estranha formigação em seu estômago faz com que ela se sentisse mal. Levanta-se meio zonza e caminha com alguma dificuldade até o banheiro. Depois de urinar, pega um analgésico no armário e o ingere rapidamente, sem água. Sente aquele comprimido entalar em sua goela, um estranho pressentimento passa por sua cabeça: “E se eu morrer sufocada pelo remédio?”, percebe que terá que beber um gole d´água. Imediatamente abre a torneira e faz uma concha com a mão, bebendo o líquido. Finalmente sente a garganta se desobstruir. Respira aliviada, havia escapado dessa.

A praça estava apinhada de crianças quando dona Maria se senta num dos bancos. Jogavam bola no meio da rua, todas brincando felizes. Em seus devaneios, dona Maria começa a se lembrar do tempo em que era uma garotinha Ingênua, em sua mente forma-se nitidamente a imagem daquela menininha tímida de sete anos brincando naquela mesma praça.

Lembra-se da pequena Verinha. Seus pais acabaram de lhe presentear com uma linda boneca de louça, cabelo todo cacheado, vestidinho rendado, pintada a mão. Mandaram trazer da capital, um artigo de luxo naquela cidadezinha onde muitas vezes faltava até produtos de primeira necessidade. Vinha de uma família pobre, podia imaginar o esforço que fizeram para comprar aquele mimo para ela. Trabalhavam na lavoura dia e noite, chegaram até a passar fome. Mas guardaram uns parcos trocados durante anos para conseguir comprar aquela bonequinha de louça. O dia ficará marcado na memória de dona Maria para sempre. Naquele dia, Verinha resolveu mostrar a boneca para as amiguinhas, com todo o cuidado, ela a levou até a praça, carregando como se fosse um bebê em seus braços.

Quando lá chegou, sentiu-se importante ao ver os olhares invejosos que as outra meninas lançaram sobre ela. Dona Maria lembra-se nitidamente de detalhes do rosto de Verinha. Aquele ar de superioridade que exalava por ter uma boneca de louça. Pela primeira vez teve a sensação daquela gastura corroendo seu estômago. Todas elas olhavam sem dizer nada, apenas olhavam aquela lindíssima boneca de louça nos braços de Verinha. Timidamente, a pequena Maria pediu:
- Verinha... Posso brincar um pouquinho?

A reação de Verinha foi inesperada. Disse um sonoro “Não!”. Aquela palavra começou a dançar freneticamente na cabecinha de Maria, um ódio irracional tomou todo seu corpinho magro. Pela primeira vez em sua vida, desejou a morte de alguém. Desejou que aquela menina sofresse como um cão antes de morrer, queria ver aquela desgraçada estirada no chão, apodrecendo. As outras meninas nada disseram, estavam maravilhadas demais com aquela bonequinha de louça. Mas Maria era diferente, a imagem da boneca desapareceu de sua frente, apenas tinha olhos para aquela maldita menina. Sua imaginação atingia limites nunca antes alcançados, via aquela garotinha sofrendo horrores enquanto morria. Imaginou Verinha estirada num caixãozinho. Chegou a rezar para que isso acontecesse.

Estava saudosista hoje, acordara se lembrando do passado, como se ela estivesse revendo toda sua trajetória de vida. Quando se lembra da maldita Verinha com aquela boneca, ela cerra as mãos, o ódio não passou e jamais passará. Mas então volta a se lembrar: Passou um ano e Finalmente suas preces foram atendidas. Verinha estava morta, afogada enquanto nadava no lago. Aquilo representou a maior benção que a pequena Maria havia recebido em toda sua vida. Aquela menina que ostentava aquela boneca estava deitada num caixão barato, inerte para sempre. A seu lado, estava a boneca de louça, que iria lhe acompanhar para as profundezas da terra. Seria enterrada com ela. A pequena Maria adorou o choro de dor dos pais daquela menina. O rosto deitado no caixão parecia azulado, estava todo enrugado devido ao tempo excessivo que permaneceu embaixo d´água. “Bem feito!” Pensa Maria, que olhava tudo de longe, com uma felicidade quase que irracional.

Agora, em sua velhice, olha de longe aquelas crianças brincando e imagina que, em algum lugar, existe uma garotinha ingênua sofrendo como ela sofreu. Pensa então que seria melhor ver aquelas crianças todas mortas ao invés de ver uma pobre menininha sofrendo as injustiças das malditas crianças perversas. Imagina que maravilhoso seria ver um caminhão desgovernado passando por aquela rua e esmigalhando todos aqueles cruéis infantes. Os gritinhos de desespero ecoando pela praça seriam como uma sinfonia para seus ouvidos.

CONTINUA

13 de abril de 2010

NO LIMIAR DA ANTROPOFAGIA - Parte 12 - Conto - Dimitri Kozma

Advertência: História forte, gráfica e perturbadora, leia por sua conta em risco.
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Parte 12

Naquela noite, dona Maria ouve baterem palmas na porta de sua casa, está assistindo ao capítulo da novela das sete e não quer abrir, mas depois de insistirem um pouco a curiosidade falou mais alto e dona Maria foi até o portão. Era a avultada Carmem, trazendo notícias:
- Boa noite, dona Maria.

Um pouco contrariada por estar perdendo a sua novela, dona Maria fala de uma maneira pueril:
- Boa noite... dona Carmem... Não quer entrar para tomar um chá?
Mas a gorda senhora declina o convite:
- Não... Obrigado. Só passei aqui prá avisar a senhora...
- O que aconteceu? – Pergunta a velha, curiosa.
- Parece que prenderam o Bernardo... Prenderam não... Ele se entregou... Foi agora pouco...
Dona Maria alegra-se:
- Não digo que Deus sabe o que faz? Não digo? Agora ele vai pagar pelo crime que cometeu. E Laurinha?
- A Zefa me falou que a Laurinha vai levar alta amanhã... Coitada, vai ter que morar sozinha naquela casa... – Diz Carmem, um pouco entristecida.

Com a naturalidade que lhe é peculiar, dona Maria fala, lívida:
- Deus escolheu este caminho para ela... O que podemos fazer? Paciência...
- Pois é... Bem, dona Maria, não vou tomar mais o seu tempo... Sei que a senhora gosta da novela e eu estou te atrapalhando...
- De maneira alguma, dona Carmem. Eu não gosto dessas novelas não! É muita pouca vergonha. Acho que deveriam censurar essa televisão que só passa lixo! – Esbraveja.
- Pois é... Concordo com a senhora.
Num rompante, ela continua a ralhar:
- Falando nisso, a senhora viu o capítulo de ontem da novela das oito? Viu?
- Não pude ver, estava preparando a massa do pão doce...
- Pois a senhora não perdeu nada! Nada! Foi uma barbaridade, sexo e mais sexo. Aonde vamos parar? Eu me pergunto de vez em quando para onde estamos indo... Com tanta imoralidade por aí...
Curiosa, Carmem pergunta:
- É mesmo! Mas o que aconteceu no capítulo de ontem, dona Maria?
A velha caquética apoia-se no muro e conta:
- Sabe o Luiz Fernando? Aquele moço loiro, casado com a Gisele Cristina?
Carmem balança a cabeça afirmativamente, dona Maria continua:
- Pois ele dormiu com a Raquel, irmã da Gisele Cristina! O pior é que mostraram tudo... Tudo! Onde já se viu mostrarem isso na televisão? Imagina quantas crianças estão assistindo! – Levanta a voz – Parece que hoje em dia só pensam nisso, são um bando de selvagens, isso sim!

Carmem concorda plenamente, e entra no clima de exasperação de dona Maria:
- É um horror mesmo! Depois as crianças saem por aí tudo fazendo coisa errada e ninguém sabe porque... Porque os pais não tem limite, porque eles deixam as crianças fazerem o que bem entender!
Apoiada no muro, dona Maria vê uma minúscula formiguinha, passeava perdida de sua colônia, sem pensar, ela espreme o inseto, apertando entre os dedos. Enquanto brinca com a formiga esmigalhada ela fala, ainda enfurecida:
- E aquele rapaz... Como ele chama? – Dona Maria tenta se lembrar. – Aquele que na outra novela fez o Eduardo... Aquele rapaz que tem os olhos claros...
- O Marcelo Moreno! – Lembra dona Carmem.
- Esse mesmo! Eu li na revista que ele gosta de homem. A senhora acredita numa coisa dessas? De homem! - Num estado de exaltação, dona Maria continua a berrar – Pederasta! Isso é o que ele é! Um pederasta!

Com naturalidade, dona Carmem diz:
- Xi! Isso é o que mais tem na televisão. Esses atores que fazem novelas são tudo um bando de maricas! Tudo! – Pausa por um instante e então se recorda de outro caso - Falando nisso, a senhora soube? O Deodato, casado com a Norminha? Pois é... Parece que ele assumiu que é homossexual!
- Meu Deus! Mas... Ele é pai de família! – Espanta-se dona Maria.
- Pai de família, é? Pois ele foi morar com o rapaz que trabalha na padaria, o Welinton. Largou a mulher com dois filhos e tá dormindo com aquele garoto.

Segurando a formiga em sua mão, dona Maria faz uma pelota com o inseto morto, nem percebe, então diz furiosa:
- Eles são sujos! Quando a justiça de Deus chegar eles vão se arrepender.
Dona Maria espreme mais ainda a formiga, que já está quase esfarelada:
- Eu jamais admitiria um filho meu ser assim! Eu jamais admitiria! Ainda bem que meu Júnior era muito homem! Esse é um orgulho que eu levo pro resto de minha vida! – Pausa, olha para a formiga em sua mão e continua a falar – Eu acho que esses pederastas tinham que queimar nos quintos dos infernos!
Corrige-se:
- Não que eu queira isso, é Deus que quer assim! Essa doença, a Aids... Está aí prá isso! Deus a fez prá punir esses pecadores imorais!

Carmem recorda-se com um ar saudosista:
- No nosso tempo não tinha nada disso, não é?
- Pois é! - Dona Maria olha aquela formiguinha que agora é um amontoado de partículas pretas inerte em sua palma e esfrega as mãos. Então berra - Isso é sinal do fim dos tempos! Quando Jesus voltar, trazendo a ressurreição dos justos, esses porcos miseráveis arderão nas chamas eternas! A senhora vai ver só! E nesse dia eu estarei assistindo a aqueles que não são tementes a Deus afundarem-se nas trevas.

Carmem apenas olha. Dona Maria faz uma pausa, percebe que saiu um pouco da linha e volta ao normal, dando um longo suspiro. Depois se lembra de perguntar:
- Dona Carmem, falando nisso, a senhora soube de alguma notícia sobre a Conceição?
- Pelo que eu fiquei sabendo, ela não saiu ainda de casa, não...
- Mas um dia vai ter que sair, não é? – Pergunta dona Maria, maliciosamente.
- Com certeza! Mas me conte, dona Maria, como foi naquele dia? Eu sei que vocês vararam a noite fazendo uma novena na porta dela. A Zuleica me contou...
Com um ar de contentamento, dona Maria diz:
- Pois é... Nós ficamos ali tentando tirar aquele demônio que dominou o corpo dela... Sabe, eu acho que o demônio aproveita quando as pessoas estão mais fracas de espírito para entrar no corpo delas... Só pode ser isso. A senhora não imagina como ela tratou o padre! Foi terrível!

Carmem se benze:
- Credo em cruz!
- Mas eu acho que não adiantou muito... O diabo é poderoso demais, dona Carmem!
- Mas Deus é mais forte, só Ele vai poder vencê-lo...
- E vai vencê-lo, dona Carmem. Vai vencê-lo. - Com um olhar corsário, dona Maria conta – Agora me lembrei! A senhora não acredita no que eu ouvi!
- Pois me conte, dona Maria.
- Sabe o Germano, marido da Cida?
Carmem apoia-se no muro, prestando muita atenção nas palavras de dona Maria, que continua a relatar:
- Bem... Eu ouvi dizer que o Germano está traindo a pobre dona Cida! Ouvi dizer que a vagabunda mora lá em Monte Alto... E ele vai toda tarde lá na casa dela. O safado parou até de beber, veja a senhora!
A bonachona Carmem fica estupefata com aquele fato revelado:
- Pobre Cida! Tão boa com ele e esse safado a trata assim!
Raspando com a unha uma ponta de ferrugem que acabara de reparar no pequeno portão de entrada, dona Maria diz:
- É falta de Deus no coração! A senhora sabia que ele não vai á igreja e a pobre Cida tem que ficar inventando desculpas toda hora? Da última vez ela me falou que ele estava com problema na próstata... Mas prá fazer safadeza ele não tem problema nenhum, né? Aquele velho safado! É outro que quando morrer vai direto ao inferno.

As duas ficam alguns segundos sem assunto, neste momento, olham para o chão ou para a rua. Dona Maria insiste em cutucar com a unha a ferrugem do portão, torcendo para que Carmem vá logo embora para que ela possa assistir ao final da novela. Finalmente, depois de alguns minutos em silêncio, a simpática gorda toma a iniciativa:
- Bem, dona Maria, vou precisar ir, ainda tenho que fazer o recheio do bolo que o Abel me encomendou.
- Tá certo. Bem, nos vemos amanhã na missa... Boa noite, dona Carmem.

Dona Maria entra apressada. Não quer perder o finzinho do capítulo de hoje da novela das sete. Senta-se, tira o chinelo e estica as pernas sobre um banquinho em frente ao televisor. Está confortável em seu sofá. A novela das oito vai começar, agora ela não vai mais abrir a porta, não pode perder este capítulo por nada neste mundo.

CONTINUA...

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